• lilianatinocobaeck

A cultura do muito


Se não tem sobrando, parece que falta. Esse é o pensamento que permeia as nossas mentes, talvez, há séculos. A regra é acumular, juntar e ter. Pois foi exatamente essa realidade que me acertou em cheio a cara uma semana antes do Natal.

Chamei duas famílias de refugiados, que conheci no evento que promovemos no nosso Projeto Migração em Debate, para doar roupas e brinquedos. Eu sabia que eles necessitavam de alguns itens, mas não tinha ideia da real situação.


Não falo sobre a condição deles, essa é ruim mesmo, apesar do consentimento de moradia, da ajuda do governo suíço etc e tal. Mas da minha. E foi que isso que me horrorizou.

Essas pessoas não têm pratos, roupa de cama, cama, mesa, sofá. Grávida de cinco meses, a mãe de uma das famílias, uma jovem da Eritreia, me pediu roupa de cama de bebê, carrinho, berço. Me confidenciou que precisava também de xícara para beber chá. Magrinha e de pequena estatura, ao contrário de mim – que sou enorme, não pode ficar com roupas que eu doava. Nem na gravidez a moça expandia para os lados.


Como era perto do Natal, o balcão da minha pia estava abarrotado de chocolate em forma de Papai Noel. A árvore, com vários presentes em volta, já estava montada. A casa brilhava de decoração. Mas a família da Eritreia tentava, em meio ao caos da minha casa, no meio do que não me servia mais, achar o que poderia ser útil para seus filhos. Levaram sete bolsas de brinquedos lindos e praticamente novos, fantasias da Disney de princesa, que comprei na loja oficial da marca, e minha filha praticamente não usou.


A outra família do Afeganistão levou outras sete bolsas de roupas e sapatos, bicicletas para criança pequena e patinete. Um favor para mim, que me desfiz daquela montanha de coisa guardada. Não conto isso para parecer boazinha.


Além de possibilitarem a faxina na minha casa, me trouxeram uma dor na consciência, uma vergonha de acumular tanta tralha, de comprar tanta bobagem. Qual o motivo de se comprar tanta besteira?


Até meu excesso de peso me envergonhou. Não pelo valor estético, mas pela comilança desvairada que nos enche de tecido adiposo. Em alguns casos, é o mesmo conceito que vale para as montanhas de coisas que compramos e nem usamos. Perguntei a uma amiga, que também doou várias coisas às famílias, e ela me confidenciou o mesmo sentimento: vergonha de comprar.


Que bom que podemos doar. Me envergonho de ter sucumbido ao consumo desenfreado, mas me orgulho de ter ajudado alguém que necessitava. De resto, só posso dizer que vou tentar consumir menos. Dá para viver muito bem com menos.

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