• lilianatinocobaeck

Sua inadequação não é mimimi


Quem nunca ouviu de um conhecido ou familiar a frase “não entendo o motivo da sua frustração, você mora em um país do Primeiro Mundo”, “se não está satisfeito, volta para o Brasil”. Além de pouca de empatia, essa reação demonstra falta de conhecimento sobre o assunto. Há muito que queria escrever sobre esse tema, porque ainda me dói ver que as dores dos outros são motivos de crítica.

Tenha em mente: sua reclamação é legítima. Sentir-se inadequado ou sozinho faz parte de uma fase da adaptação em um novo país. É esperado e normal. Esse período tem até nome: choque cultural.

Choque cultural

Surge quando o migrante ou expatriado se depara com as dificuldades de viver fora. Essas experiências vão desde a dificuldade com o idioma à mudança de papéis sociais, por exemplo. Uma mulher que se torna, de um momento para outro, dona de casa, provavelmente enfrentará problemas para lidar com esse novo papel social.

Com o passar do tempo, as diferenças culturais podem tornar-se irritantes e até humilhantes. Isso tudo é intensificado pela sensação de não pertencimento ao lugar e pela falta de apoio de amigos e familiares. No Projeto Migração em Debate, que eu coordeno junto com a minha colega Graziela Velardo Birrer aqui na Suíça, ouvimos frequentemente esse tipo de queixa. Muitas mulheres acompanham os maridos e, mesmo sabendo que terão que abandonar sua carreira, sofrem muito após certo tempo.

Amor próprio em baixa

“Me sinto um lixo” foi a frase mais marcante que já ouvi em uma das sessões do nosso projeto. Mas a maioria das pessoas que já viveu fora conhece esse sentimento, piorado quando há falta de apoio local somado aos nossos próprios julgamentos internalizados. Em geral são as próprias pessoas que sofrem quem menos se perdoam, se criticam e se põem para baixo.

Tentando fazer amigos

É como uma criança que muda de escola. Ela se sente insegura, não sabe onde encontrar a secretaria, a sala dos professores. Precisa fazer novos amigos e sente-se amedrontada. Mesmo na idade adulta, recomeçar em outro lugar traz os mesmos desafios, só que em uma língua diferente.

Então, saudade, insegurança, medo, tristeza e ansiedade podem ser seus companheiros nesse período de ajuste. O importante é não estagnar nessa fase, que pode ter início alguns meses após a chegada ao novo país.

Adaptar-se

Hoje não vou dar dicas sobre como ultrapassar essas barreiras, o objetivo desse texto é mostrar a você, que sofre com esses sentimentos, que é normal, faz parte do processo. O segredo, talvez, seja pegar mais leve com você. Adaptar-se requer novas formas, e adquirir novos formatos tem lá seu desafio.

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